
Durante a cerimónia-exposição que assinalou os 75 anos do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), realizada na Estação Central dos CFM, em Maputo, a Presidente da FDC e defensora dos direitos humanos, Graça Machel, partilhou reflexões sobre o passado de Moçambique e os desafios globais de proteger quem é forçado a fugir.
Machel, que foi laureada com a Medalha Nansen do ACNUR em 1995 — distinção atribuída a personalidades que se destacam no serviço aos refugiados — falou com a autoridade moral de quem viveu e dedicou parte da sua vida à causa humanitária.
A exposição apresenta fotografias históricas das operações de repatriamento de milhões de moçambicanos, após a luta de libertação nacional e a guerra civil de 16 anos, oferecendo um espaço de memória e de diálogo sobre a realidade da deslocação forçada.
Com forte carga emocional, Machel recordou a sua própria experiência:
“Eu também fui refugiada, na Tanzânia. Foi uma experiência dura, mas formadora. Aprendemos, na pele, o que significa depender da compaixão dos outros — e aprendemos, sobretudo, como devemos tratar quem hoje procura protecção.”
Ao recordar o período em que centenas de milhares de moçambicanos buscaram refúgio na África do Sul, Zimbabwe e outros países da região, destacou: “Fomos obrigados a confrontar a nossa própria história — uma história difícil. O regresso dos nossos compatriotas foi um dos maiores desafios que o país enfrentou. Mas também vivemos um movimento gigantesco de solidariedade mundial para com Moçambique.”
Reflectindo sobre o presente humanitário, deixou um alerta sobre o dilema que muitos profissionais enfrentam: “Quem trabalha com refugiados vive, muitas vezes, uma contradição profunda: entre o dever de proteger e o impacto real desse dever, que nem sempre alcança quem mais precisa.”
E concluiu com uma mensagem que ressoou na sala: “É preciso coragem para reconhecermos que, como humanidade, continuamos a produzir refugiados — todos os dias.”


